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Artigo de Ana Águas
Descobrir Gondomar entre o ouro da filigrana e a tranquilidade do Douro
Há destinos que se revelam pelas paisagens. Outros conquistam-nos pela gastronomia ou pelo património monumental. Gondomar faz-se descobrir de uma forma diferente: pelas mãos de quem, há gerações, transforma delicados fios de ouro e prata em verdadeiras obras de arte.

Reconhecida como a Capital da Ourivesaria Portuguesa, é neste concelho que se concentra cerca de 60% da produção nacional de ourivesaria e onde a filigrana continua a ser um património vivo, preservado por famílias que mantêm um saber-fazer único.
Para abrir este universo ao público nasceu, em 2016, a Rota da Filigrana, um percurso que permite entrar em oficinas tradicionalmente fechadas, conhecer os mestres ourives e descobrir como uma das mais emblemáticas artes portuguesas continua a ser transmitida de geração em geração.
Durante estas 48 horas, o primeiro dia será dedicado à filigrana e às pessoas que a mantêm viva. O segundo convida a descobrir uma Gondomar diferente, entre a arte, o rio Douro e uma programação cultural que revela um território muito para além do ouro.
Dia 1 | O Ouro e as Mãos
A melhor forma de iniciar esta viagem é na Casa Branca de Gramido, um elegante edifício do século XIX situado nas margens do Douro, onde história, património e turismo se cruzam num único espaço. É aqui que funciona a Loja Interactiva de Turismo, o Welcome Center da Rota da Filigrana e o Museu Municipal da Filigrana, tornando este o ponto de partida natural para quem pretende compreender a importância da ourivesaria em Gondomar.
Antes de iniciar a visita às oficinas, reserve algum tempo para conhecer o museu. Mais do que uma exposição de peças, este espaço explica como a filigrana se tornou parte da identidade económica, social e cultural do concelho. Entre as obras em destaque encontram-se algumas das criações mais emblemáticas promovidas pelo Município de Gondomar, como o Maior Coração em Filigrana do Mundo, concebido pelo CINDOR e executado por 25 artesãos de 12 empresas locais, ou o extraordinário Vestido em Filigrana, criado para representar Gondomar na Expo Dubai numa colaboração entre a estilista Micaela Oliveira, o mestre ourives Arlindo Moura e quinze artesãos do concelho.
Vale igualmente a pena olhar para o próprio edifício. Foi precisamente na Casa Branca de Gramido que, em 1847, foi assinada a Convenção de Gramido, o tratado que colocou um ponto final na Guerra da Patuleia, marcando um dos episódios políticos mais relevantes da história portuguesa do século XIX.
A participação na Rota da Filigrana requer marcação prévia com, pelo menos, três dias úteis de antecedência, através do e-mail turismo@cm-gondomar.pt.
Muito mais do que visitar um museu
É aqui que termina a parte expositiva e começa a verdadeira experiência. Ao sair da Casa Branca de Gramido e entrar nas oficinas, deixa de observar a filigrana atrás de uma vitrina para a ver nascer diante dos seus olhos. O som delicado das ferramentas sobre o metal, a precisão dos gestos, a concentração dos artesãos e a paciência necessária para trabalhar fios de ouro com apenas alguns décimos de milímetro transformam esta visita numa experiência profundamente humana.
Conhecer quem continua a escrever esta história
Cada oficina guarda uma identidade própria. Algumas mantêm praticamente inalterados os métodos de trabalho de há várias gerações. Outras demonstram como a filigrana encontrou novas linguagens através do design contemporâneo e da colaboração com criadores internacionais. Em comum, todas partilham o mesmo respeito pela tradição e uma dedicação absoluta ao detalhe.
Ao longo da rota poderá visitar espaços como:
CINDOR — o único centro de formação profissional em Portugal dedicado exclusivamente à ourivesaria, joalharia e relojoaria. É aqui que muitos dos futuros artesãos aprendem as técnicas tradicionais, garantindo a continuidade deste património. O centro promove igualmente workshops e experiências onde os visitantes podem contactar de perto com o processo de produção.
AC Filigranas — oficina fundada por António Cardoso, cuja projecção internacional ficou associada ao conhecido “efeito Sharon Stone”. Um episódio mediático que ajudou a despertar a atenção do mundo para a filigrana portuguesa e que abriu novas portas à internacionalização deste saber-fazer.
António Marinho Jewellery — um exemplo de como tradição e inovação podem caminhar lado a lado. A criatividade, a excelência técnica e a presença em iniciativas como o Portugal Fashion demonstram que a filigrana continua a evoluir sem perder a sua essência.
ARPA — empresa familiar onde o conhecimento artesanal passa de geração em geração, conjugando técnicas tradicionais com a produção para marcas nacionais e internacionais.
Conceição Neves — considerada uma das mais reconhecidas filigraneiras portuguesas, colaborou com marcas como a Topázio e com o designer Christian Louboutin, demonstrando que uma técnica ancestral continua a inspirar o design contemporâneo.
Monteiro de Sousa & Filhos — um exemplo da continuidade de uma tradição familiar, onde inovação e respeito pelo património caminham lado a lado.
Topázio — fundada em 1874, continua a ser uma referência da prata portuguesa, preservando um legado centenário que combina excelência artesanal e design.
Ao terminar este primeiro dia, levará consigo muito mais do que o brilho do ouro. Levará a memória das conversas, dos gestos e das histórias de quem dedica uma vida inteira a preservar um dos mais extraordinários saberes-fazer portugueses. É aí que se percebe que a verdadeira riqueza de Gondomar continua a ser feita à mão.
Dia 2 | A Arte e o Rio
Depois de um dia dedicado às oficinas, aos mestres ourives e ao brilho delicado da filigrana, chega o momento de descobrir uma Gondomar diferente. O ritmo abranda, o Douro assume o protagonismo e a arte revela uma nova forma de compreender este território.
O Lugar onde o desenho ganha vida
Com vista privilegiada sobre o rio Douro, o Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende é um daqueles espaços que nos fazem reduzir naturalmente o passo.
Criada em 1993 pelo próprio pintor Júlio Resende, a Fundação nasceu para preservar e divulgar a obra de um dos mais importantes artistas portugueses do século XX, mas rapidamente se afirmou como um centro de referência dedicado ao desenho contemporâneo. Ao percorrer as suas salas encontrará cerca de 2.500 obras, entre pinturas, desenhos, gravuras e estudos preparatórios que permitem acompanhar o percurso artístico de Júlio Resende ao longo de várias décadas.
Mas este não é apenas um espaço de memória. Ao longo do ano, a Fundação recebe exposições temporárias de artistas nacionais e internacionais, conferências, concertos, lançamentos de livros, oficinas criativas e diversas actividades educativas, tornando cada visita diferente da anterior.
As grandes janelas abertas sobre o Douro fazem parte da própria experiência. A paisagem entra discretamente nas salas e ajuda a compreender porque motivo o rio foi uma presença constante na obra do pintor.
Se pretender prolongar a visita, poderá ainda conhecer a Casa-Atelier Júlio Resende, preservada praticamente como o artista a deixou. Entre pincéis, esboços, livros e objectos pessoais, é possível entrar no universo criativo de um dos maiores nomes da pintura portuguesa.
Entradas: €1 e €0,50 (< 18 anos, estudantes e > 65 anos) Atelier: €2 e €1 (< 18 anos, estudantes e > 65 anos)
Um passeio onde o Douro dita o ritmo
Ao sair da Fundação, deixe o mapa no bolso.Uma das melhores formas de conhecer Gondomar é simplesmente caminhar junto ao rio. A frente ribeirinha oferece um percurso tranquilo onde os antigos cais convivem com pequenas embarcações, zonas verdes e recantos que convidam a fazer uma pausa. A luz reflectida na água muda ao longo do dia, oferecendo sempre uma nova perspectiva sobre esta paisagem que inspirou artistas, pescadores e habitantes locais durante gerações.
É um passeio sem destino obrigatório. Caminha-se porque apetece caminhar.
Pelo caminho encontrará esplanadas e restaurantes onde vale a pena fazer uma pausa para almoço. O peixe fresco continua a ser um dos protagonistas da gastronomia local, acompanhado por uma vista privilegiada sobre o Douro.
Um concelho que nunca pára
Antes de terminar a sua viagem, reserve algum tempo para descobrir o que está a acontecer no Pavilhão Multiusos de Gondomar.
Projectado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, Prémio Pritzker e uma das figuras maiores da arquitectura contemporânea, o edifício foi inaugurado a 28 de Junho de 2007. A sua arquitectura sóbria e funcional integra-se na paisagem urbana e tornou-se uma das referências do concelho.
Mais do que um equipamento desportivo e cultural, o Multiusos é hoje um dos principais palcos para grandes eventos no Norte do país. Ao longo do ano acolhe concertos de artistas nacionais e internacionais, espectáculos de humor, musicais, feiras, congressos, competições desportivas e exposições, contribuindo para uma programação diversificada que mantém Gondomar em constante movimento.
Se estiver a planear a sua visita com antecedência, consulte a programação. É frequente encontrar grandes eventos a decorrer durante o fim-de-semana, acrescentando uma experiência inesperada ao roteiro.