BEST PORTUGAL BRANDS
Artigo de Joana Beirão
“Uma reflexão a partir da exposição «Os Novos Clássicos do Design Português» sobre a importância de aproximar o design e a produção nacional do quotidiano das pessoas.”
Há uma pergunta que nos acompanha há alguns anos: porque é que continuamos a conhecer tão pouco, aquilo que fazemos tão bem?
Portugal é reconhecido internacionalmente pela qualidade dos seus designers, arquitectos, artistas, fabricantes e indústrias. Produzimos mobiliário, iluminação, têxteis, cerâmica, pedra, cortiça e objectos que encontram lugar em hotéis, museus, galerias, feiras internacionais e projectos de arquitectura por todo o mundo. No entanto, paradoxalmente, uma grande parte desta realidade continua distante do olhar quotidiano, de quem vive no próprio país.
Foi precisamente dessa constatação que nasceu a exposição pop-up “Os Novos Clássicos do Design Português”, apresentada na BPI All in One Lisboa.
Mais do que uma exposição, o projecto procurou ser uma experiência de aproximação. Uma tentativa de levar o design português para um território inesperado, um espaço bancário, frequentado diariamente por pessoas com diferentes percursos, interesses e níveis de conhecimento sobre design.
A escolha do local não foi acidental
Durante décadas, o design habituou-se a comunicar sobretudo com públicos especializados. Feiras, galerias, museus, semanas do design e publicações da especialidade continuam a desempenhar um papel fundamental, mas talvez seja tempo de reconhecer que a valorização cultural do design depende também da sua capacidade de encontrar novos contextos de visibilidade.
Um Banco não é, à partida, um espaço de exposição. E foi precisamente por isso que nos pareceu interessante.
Num momento em que Lisboa se afirma como uma cidade global, visitada e habitada por pessoas de múltiplas nacionalidades, torna-se ainda mais importante criar oportunidades para mostrar aquilo que aqui se produz. Não apenas aos visitantes internacionais, mas também aos próprios portugueses, que muitas vezes desconhecem a riqueza do património criativo contemporâneo que existe à sua volta.
Com conceito expositivo desenvolvido em colaboração com a designer Ana Lia Santos, autora da identidade gráfica, ilustração e layout da iniciativa, a exposição reuniu peças de autores consagrados e de criadores emergentes, assumindo uma posição deliberadamente inclusiva sobre aquilo que entendemos por cultura de projecto.
Ao lado de nomes amplamente reconhecidos, como o arquitecto Miguel Arruda, surgiram também novos artistas, designers e criadores para quem esta participação representou uma oportunidade de exposição, aprendizagem e crescimento. Em vários casos, a iniciativa assumiu inclusivamente uma dimensão de mentoria informal, aproximando gerações e criando condições para que novas vozes encontrassem espaço de representação.
A exposição acolheu ainda protótipos e peças experimentais, entre eles as floreiras Jardinières concebidas por Ana Lia Santos, demonstrando que os processos de criação são tão relevantes quanto os objectos concluídos. Mostrar uma ideia em desenvolvimento é também uma forma de valorizar o pensamento de projecto e de aproximar o público das etapas invisíveis da criação.
Talvez tenha sido essa diversidade que tornou a exposição particularmente representativa do momento actual do design português. Um ecossistema onde coexistem indústria e manualidade, tradição e inovação, produção consolidada e investigação experimental.
Após o encerramento da exposição, procurámos preservar essa memória através de dois registos distintos.
O vídeo, acompanhado apenas por uma composição para piano, documenta a experiência do espaço, os percursos dos visitantes, a relação entre as pessoas e os objectos, os momentos de observação e descoberta. Mais do que mostrar peças, procura captar a atmosfera criada.
As imagens analógicas seguem uma lógica semelhante. Num tempo dominado pela rapidez do digital, a opção pela película foi uma escolha consciente. Tal como muitos dos objectos apresentados, também a fotografia analógica valoriza o tempo, a matéria, a imperfeição e a presença física.
Ambos os registos procuram preservar algo que muitas vezes escapa à documentação convencional, a dimensão humana da experiência.
Porque, no final, a questão nunca foi apenas expor peças. A questão foi perceber como podemos criar novos encontros entre as pessoas e o design e produção portuguesa.
Se queremos que o design seja reconhecido como parte integrante da nossa cultura contemporânea – e nós queremos – então ele precisa de estar presente nos lugares onde a vida acontece. Precisa de surgir em espaços inesperados, cruzar públicos distintos e integrar contextos que habitualmente não lhe pertencem.
“Os Novos Clássicos do Design Português” deu o seu primeiro passo nesse caminho, e gostamos do elogio de o termos feito de forma honesta.
E não será o último.
Os próximos projectos já estão em desenvolvimento, mantendo a mesma convicção que deu origem a esta iniciativa: o design português não deve limitar-se a ser admirado pelos especialistas. Deve ser conhecido, vivido e reconhecido.
Da minha parte, estou disponível para qualquer projecto deste tipo.
Créditos video e imagem
João Carriço; @jjanito (Instagram); Carlota Pinto da Silva @_dontbeapasco (Instagram)







