Em Vietri sul Mare encontrámos Portugal entre a arquitectura e a cerâmica

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Artigo por Joana Beirão

A cerâmica de Vietri sul Mare revela uma ligação inesperada entre a arquitectura de Paolo Soleri e a obra de Manuel Cargaleiro.

Uma viagem pela Costa Amalfitana onde a cerâmica, o saber-fazer e a memória portuguesa se encontram.

Painel cerâmico em homenagem a Manuel Cargaleiro, em Vietri sul Mare
Painel cerâmico dedicado a Manuel Cargaleiro, em Vietri sul Mare.

 

“Comecei a minha vida de artista como ceramista e sou ceramista mesmo quando pinto a óleo. Não imagino uma sem a outra”, Manuel Cargaleiro

Viajar tem esta capacidade tão bonita de nos aumentar a curiosidade. Afastamo-nos dos dias conhecidos, deixamos para trás os mesmos percursos e, aos poucos, voltamos a olhar com mais tempo. Nesta viagem a Itália, por terras napolitanas, puglianas e amalfitanas, a cerâmica de Vietri sul Mare trouxe-nos precisamente isso, a alegria de descobrir e uma ligação inesperada a Portugal.

Há qualquer coisa de rejuvenescedor em deixar o olhar passear. Uma fachada que nos faz parar, uma combinação de cores que nunca experimentaríamos, uma pequena oficina que nos convida a espreitar. Para quem trabalha com ambientes, materiais e criação, estes momentos são alimento. Despertam ideias, desfazem certezas e lembram-nos de como é bom continuar a aprender.

Itália oferece muitos desses encontros. Numa viagem de passeio em que andamos a fugir à chuva e tornados, sem destino programado à partida por isso, foi em Vietri sul Mare, à entrada da Costa Amalfitana, que este passeio ganhou um significado ainda mais especial.

Íamos conhecer uma fábrica de cerâmica. Acabámos por encontrar um pouco de nosso.

Vietri sul Mare, uma vila que se revela no seu saber fazer e materiais

Em Vietri, a cerâmica acompanha o passeio. Aparece nas lojas, fachadas, pavimentos e em pormenores que nos fazem abrandar o passo. Mais do que uma simples recordação fotográfica para levar da viagem, torna-se numa forma genuína de reconhecer e sentir um lugar.

Aqui há uma proximidade entre aquilo que se produz e aquilo que se vê. As peças pertencem à vila, às suas cores e à vida de quem continua a trabalhar o barro, com orgulho. A tradição cerâmica local remonta a vários séculos, uma continuidade que ajuda a compreender a importância da Solimene neste território.

Foi essa relação entre o lugar e o saber fazer que nos desperta a curiosidade, com a própria fábrica a contar-nos a história ainda antes de entrarmos. Fomos então saber um pouco mais, o dia estava chuvoso mas o nosso olhar vivia um sol intenso.

Ceramica Artistica Solimene, em Vietri sul Mare
Ceramica Artistica Solimene, em Vietri sul Mare.

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Solimene, a fábrica que celebra a cerâmica na arquitectura

A Ceramica Artistica Solimene, projectada por Paolo Soleri, arquitecto italo-americano, e inaugurada em 1954, ocupa um terreno estreito entre a encosta rochosa e a estrada. Os volumes da fachada inclinam-se para o exterior, ganhando espaço, enquanto grandes superfícies envidraçadas deixam entrar a luz.

Milhares de pequenos vasos cerâmicos vermelhos e verdes revestem o edifício. O material produzido pela fábrica torna-se parte da sua arquitectura, dando textura e cor à fachada. No interior, pilares ramificados e uma rampa contínua articulam os diferentes níveis de trabalho.

É essa coerência que nos prende o olhar. A fábrica apresenta-se através daquilo que faz. A cerâmica sai da escala do objecto, cresce e transforma-se em edifício.

Para quem gosta de descobrir lugares de produção, há aqui uma beleza particular. Um bom local onde um ofício pode inspirar um espaço, território e como a arquitectura pode dar expressão à identidade de uma empresa e de uma comunidade. Mas não fica por aqui, a sua expressão expande-se até à praça central, um jardim de passeio e contemplação, muros, bancos e a pormenores pontuais inesperados.

Paolo Soleri, o arquitecto que pensava a relação com a natureza

Paolo Soleri foi um arquitecto italiano que passou pela escola de Frank Lloyd Wright e desenvolveu grande parte do seu percurso nos Estados Unidos. Tornou-se conhecido pela «arcologia», uma ideia que aproxima arquitectura e ecologia, e procura formas de habitar com menor consumo de espaço e recursos.

A Solimene é a sua única obra construída em Itália. Neste encontro com Vincenzo Solimene, empresário e ceramista, deixou uma arquitectura singular, pensada numa relação territorial e a actividade que acolhe.

Ao vê-la, sentimos vontade de olhar outra vez. De perceber as formas, aproximar-nos dos materiais e descobrir o que acontece para lá daquela fachada.

E, de repente, encontrámos Manuel Cargaleiro

E no decorrer deste passeio surge uma surpresa portuguesa e encontrámos uma homenagem a Manuel Cargaleiro.

Reconhecer o seu nome, trouxe uma emoção maior. A alegria de encontrar alguém nosso num lugar que estávamos ainda a conhecer, de veraneio (e sim, não sabíamos que ele havia lá estado e que havia esta cumplicidade) mas que de repente fez todo o sentido. Perceber que a sua presença fazia parte da memória daquela comunidade, ganhou um valor superlativo.

No painel que fotografámos, encontrámos a frase que aproxima imediatamente o artista do universo que tínhamos vindo descobrir:

«Comecei a minha vida de artista como ceramista e sou ceramista mesmo quando pinto a óleo. Não imagino uma sem a outra.»

Manuel Cargaleiro

Depois da visita à fábrica, aquelas palavras ganharam uma ressonância especial. O barro, a pintura, a arquitectura e o trabalho das mãos pareciam encontrar-se no mesmo passeio.

Cargaleiro Amalfi

Quem foi Manuel Cargaleiro

Manuel Cargaleiro nasceu em 1927, em Chão das Servas, no concelho de Vila Velha de Ródão, e faleceu em 2024. É um dos grandes nomes da arte portuguesa, com uma obra em que a pintura e a cerâmica se alimentam mutuamente. As cores vibrantes, os ritmos geométricos e a reinvenção do azulejo tornaram a sua linguagem inconfundível, razão pela qual reconhecemos obviamente e no imediato o seu painel.

Dividiu o seu percurso entre Portugal e França, colaborou com a Viúva Lamego e encontrou também em Itália um território fértil para a criação. A tradição cerâmica de Vietri sul Mare aproximou-o da Costa Amalfitana, onde recebeu, em 1999, o Grande Prémio Internacional Viaggio attraverso la Ceramica.

Dessa ligação nasceu, em 2004, o Museo Artistico Industriale Manuel Cargaleiro, em Vietri sul Mare. Em 2015, a inauguração da Fondazione Museo Manuel Cargaleiro, em Ravello, deu continuidade à presença do artista na região e ao diálogo entre a cerâmica portuguesa e italiana.

A sua marca estendeu-se também ao espaço público, deixando a cor e a cerâmica ao alcance de quem passeia. Uma presença que prolonga o encontro entre o artista, os ofícios e a vida dos lugares.

Fomos então pesquisar, e percebemos que Cargaleiro encontrara nesta região um lugar de criação e reconhecimento. Nós, tantos anos depois, encontrávamos inesperadamente os sinais dessa relação. E foi bonito perceber que uma viagem ainda nos podia oferecer esta surpresa, descobrir um artista que julgávamos conhecer melhor, e sentir Portugal um pouco mais perto.

Sempre a aprender, sempre a conhecer, com a alegria de quem se deixa surpreender.

Uma homenagem que continua nas mãos de outros

O painel com as palavras do artista guarda uma ideia que nos ficou na memória, a continuidade entre as diferentes formas de criar.

Vietri presta-lhe também homenagem através de uma composição cerâmica inaugurada em Maio de 2025, na confluência do Corso Umberto I com a Piazza Vincenzo Solimene, perto do local onde funcionou o museu dedicado ao artista.

Realizado por alunos de cerâmica de Salerno, com o apoio da La Vietrese, este painel retoma formas e cores da linguagem de Cargaleiro. Há algo comovente nessa passagem entre gerações, jovens que aprendem um ofício e encontram na obra de um artista português um ponto de partida para criar.

A homenagem torna-se, assim, uma continuidade. A memória do mestre permanece no espaço público e no trabalho de quem começa.

Em Amalfi, a alegria de reconhecer um dos nossos

Seguíamos pela estrada da costa, entre curvas e contracurvas fáceis nesta altura do ano, vistas de mar e a atenção repartida por tudo o que nos rodeava, quando um painel de azulejos nos fez olhar de outra maneira. Aquelas cores, aquelas geometrias, aquele ritmo tão familiar. Era Cargaleiro.

Há uma emoção pirosa e excitante difícil de explicar neste reconhecimento – é o inesperado entregue à descoberta de outro país que adoramos, e encontramos uma presença que nos pertence também. Apetece sorrir, chamar a atenção de quem vai connosco e com quem passa, e partilhar aquele pequeno orgulho, quase como se tivéssemos encontrado alguém conhecido.

Em Vietri sul Mare, a homenagem despertara-nos a curiosidade pela sua ligação à região. Em Amalfi, era a própria obra que vinha ao nosso encontro, à vista de quem percorre a costa. E, por instantes, o passeio ganhou uma intimidade inesperada.

Não fotografámos o painel. Ficou-nos a alegria de o reconhecer e a vontade de compreender melhor o caminho que levara um artista português até ali. Foi essa vontade que trouxemos para este artigo, prolongar a descoberta e partilhá-la com quem nos lê.

Regressar com o olhar renovado

Fomos a Itália para passear, conhecer lugares, namorar e dar espaço à descoberta. Trouxemos imagens, ideias e esta pequena história, uma fábrica que se expressa através da cerâmica, uma homenagem em Vietri sul Mare e um novo encontro com a obra de Cargaleiro em Amalfi.

São estes encontros que tornam uma viagem tão fértil para a criatividade. Voltamos com outras referências e com mais vontade de reparar, de experimentar e de contar aquilo que vimos.

Com Portugal Faz Bem®, procuramos conhecer o que se faz, quem o faz e os lugares onde esse conhecimento permanece vivo. Nesta viagem por Nápoles, Puglia e Costa Amalfitana, esse olhar encontrou uma ponte entre países, feita de barro, cor e memória.

Descobrir o que Portugal faz bem, longe de casa e de forma inesperada, tem um sabor ainda mais especial. Foi mesmo giro!